CARREIRA
UMA
CRÔNICA SOBRE JOSÉ RICARDO ______________________
"José
Ricardo recebeu um dom de Deus, um dos mais belos e admiráveis dons
com que o Senhor presenteia os filhos.
Provavelmente, vocês pensarão que era a sua voz: possante, encorpada,
mas ao mesmo tempo suave e melodiosa; seu instrumento de trabalho, com
o qual forjou sua família e seu merecido conforto.
Mas não é a esse dom que me refiro; é a outro, o da bondade, da generosidade,
do altruísmo, do companheirismo, da compreensão, do entendimento. Não
me lembro de tê-lo visto zangado, aborrecido, mal-humorado. O eterno
sorriso se esboçava no rosto; os olhos olhavam de frente o interlocutor
sempre bem vindo; os braços ensejavam abraços à aproximação do amigo.
Ele próprio era dom, donativo, doação.
Material ou espíritual, dependendo da circunstância. Preocupava-o a
preocupação dos outros; doía-lhe a dor do mundo. Ele se foi, nós ficamos.
Ficaram conosco, porém, os exemplos, as lembranças, as atitudes, todas
admiráveis. Podemos, portanto, na hora triste de sua partida, ainda
sorrir e nos alegrarmos, porque também recebemos um dom: o de conviver
e aprender com ele, o de sermos e o termos como AMIGO."
Profa.
Maria Amélia Amaral Palladino
Ex-Diretora Geral do Colégio Pedro II
Em 17.05.1999
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BREVE HISTÓRICO DE SUA VIDA______________________
José Ricardo (José Alves Tobias) começou ainda garoto
na Rádio Guanabara, no programa Ritmos da Polícia Militar, e depois
na Rádio Mauá, em um programa de gente nova apresentado por Isaac Zaltman.
Mais tarde, em 1964, gravou um compacto com a música "Eu que amo somente
a ti" que depois de estourada, fez com que fosse lançado em fevereiro
de 1965 o seu primeiro LP na RCA.
A partir de apresentações no programa César de Alencar na "Grande Parada
Pastilhas Valdas", onde defendeu o seu primeiro sucesso no disco, surgiu
o convite para que fosse contratado pela Rádio Nacional (o grande veículo
de comunicação da época) tendo um horário dentro do programa Manoel
Barcellos.
Participou
também, do programa ´Encontro com os Brotinhos´ apresentado
por José Messias na Rádio Guanabara, sendo um dos precursores
do que hoje conhecemos como ´Jovem Guarda´. Por falar em
Jovem Guarda, teve o seu nome perpetuado no hino deste movimento que
é a música "Festa de Arromba" composta por Roberto e Erasmo Carlos.
Na
fase áurea da TVRio e TV Record, cumpriu contrato de vários anos onde
atuou nos programas: "Corte Rayol Show", "O Fino da Bossa", "Esta Noite
se Improvisa", "Jovem Guarda", entre outros.
Ao longo da carreira já foi capa de várias revistas, participou de fotonovelas,
participou de álbum de figurinhas, atuou como ator no filme "Jovens
pra Frente" (último de Oscarito), fez mais de 6.000 apresentações, recebeu
centenas de troféus e placas de reconhecimento da sua importância para
a MPB, destacando-se: "Troféu Revelação do Ano" (1963) entregue pela
Revista do Rádio e o "Troféu Cidade do Rio de Janeiro", entregue pela
prefeitura no ano do IV centenário da cidade e ganhou o Festival da
Canção com "Gina". Fez muito sucesso e ganhou o título de "Favorito
da Nova Geração" (1965) durante a Jovem Guarda.
Foram
mais de 35 anos de carreira artística. Este excepcional cantor da MPB,
participou de grandes momentos do rádio e da televisão brasileira. Cantor
romântico por excelência e dono de uma potente voz, José Ricardo não
se limitava a cantar um estilo de música: procurava sempre se identificar
com a modernidade. Até ao carnaval brasileiro deu sua contribuição:
durante a Jovem Guarda gravou vária músicas de Carnaval
- muitos o criticavam por não só cantar músicas
no estilo do movimento, mas sua qualidade vocal não lhe permitia
restrição de repertório.
Nos últimos 8 anos de vida, lutou pela criação e participou
ativamente pela manutenção dos Bailes Populares na Cinelândia que proporcionava
trabalho para seus colegas e uma opção para o povo que não podia frequentar
bailes em clubes particulares.
José
Ricardo nunca parou, estava sempre em atividade no Brasil e no Exterior,
fazendo shows, participando de programas de rádio e televisão, prestigiando
apresentações de amigos e procurando sempre aprimorar ainda mais, a
sua brilhante carreira. Desde o início de carreira, apresentou-se por
vários países, tendo seu talento reconhecido em plagas estrangeiras.
Fez temporadas nos Estados Unidos, passou por vários países da América
Latina, Ásia e Europa.
Porém,
gostava mesmo de ir a Portugal, onde fazia temporadas regulares, tendo
recebido homenagem especial do então presidente Mário Soares - foto.
Neste país, se apresentou sempre nos grandes espaços culturais como
o "Teatro Coliseu de Lisboa" e "Casino de Estoril", o maior da Europa.
Ajudou também, a divulgar o Rancho Folclórico Brasil-Portugal.
No
Reveillon de 1998/1999, o cantor fez o seu último grande show que foi
realizado na Praia de Copacabana - Rio de Janeiro- foto.
Em 11 de maio de 1999, perdeu a batalha para o câncer e teve o seu último
momento de reconhecimento popular, quando uma multidão compareceu para
se despedir do cantor no Rio de Janeiro.
Naquela
tarde ensolarada de 12 de maio de 1999, quarta-feira, quando o carro
do Corpo de Bombeiros deixava a Câmara Municipal do Rio de Janeiro,
a Cinelândia - Centro da cidade do RIO - por um momento parou para aplaudir
o grande ídolo que lhes deixava- foto.
Agora, parte da sua obra, através do amor e respeito ao próximo,
defesa da cultura nacional e amparo aos artistas, continua com a Fundação
que leva o seu nome.
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COMO
JOSÉ ALVES TOBIAS SE TORNOU JOSÉ RICARDO ______________________
Ele
mesmo contou em entrevista: "Um dia decidi procurar 'no peito' uma
gravadora muito conhecida (EMI Odeon) e pedir para fazer um teste. O
examinador "expert" no assunto, não teve meias palavras e foi logo me
desenganando dizendo que eu não dava para ser cantor. Amargurado e num
tremendo estado de desolação, sai da gravadora e passei a perambular,
pelas ruas, sem destino certo, conjecturando: "mas se todos gostam de
me ouvir cantar ! ... Não estaria equivocado ? ... Será que ele me ouviu
atentamente?..." E o meu cérebro não cansava de funcionar...Quando dei
por mim, estava em frente a RCA-Victor.
Acreditando no meu valor, e ainda com um bom saldo de persistência,
entrei no prédio e procurei o Sr. Paulo Rocco - Diretor Técnico, que
depois das pretensões mandou que voltasse depois. Nem fui embora. Naquele
dia eu estava com um acetato e pedi para que ele ouvisse pelo menos.
De tanto pedir e chatear fui atendido (naturalmente, para que não ficasse
mais importunando). Com ceticismo e bocejar dos presentes, começou a
rodar e ai então 'aconteceu o milagre'... Antes de terminar a audiência,
era convidado a comparecer no dia imediato, a fim de ensaiar uma versão
de Aldacyr Louro e conforme o resultado gravá-la. "Eu que amo somente
a ti" em um compacto. Estourou e é cantada até hoje. Minha carreira
teve início, oficialmente, no dia 27 de setembro de 1963, data da assinatura
do meu primeiro contrato com a RCA-Victor. "
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SEUS
SUCESSOS ______________________

Em
seu primeiro Lp, ´Eu Que Amo Somente a Ti´, marcou seus
primeiros sucessos, com a música homônima de Sérgio Endrigo. O bolero
´Travesseiro´, de José Messias, sucesso principalmente no
Nordeste e sempre obrigatório em seus shows.
Além
destas músicas, nos vários anos de carreira, esteve nas
paradas de sucesso com: ´Somente uma Saudade´, ´O
Homem que não sabia Amar´, ´Quando digo que te amo´,´Gina´,
´Meu Primeiro Amor´, ´Eu te amo´, ´Cantiga
por Luciana´, ´Negue´, ´Sempre no meu Coração´,
´Tenho Vontade de Dizer´, ´Pôxa´, ´Oração
de um Jovem Triste´, ´São coisas da vida´, ´Não
volto mais´, entre outras belas canções que sempre interpretou.
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A FAMÍLIA ______________________
José
Ricardo (José Alves Tobias) nasceu no Rio de Janeiro no dia 06 de março
de 1939, no bairro da Tijuca. Foi o terceiro filho de Philemon Tobias
e Mafalda da Silva Tobias - foto. Seu pai, decendente
de índios, fora jogador de futebol em Alagoas e veio para o Rio tentar
a sorte. Não foi bem no futebol, mas acabou reconhecido como um dos
maiores mestres de marcenaria do país e seu trabalho pode ser visto
em Brasília no Palácio do Planalto. Apesar do talento, o Sr. Philemon
não fez fortuna e com dificuldades conseguiu criar os seus 4 filhos
(Luiz, Lucy, José Ricardo e Marcos Sebastião) junto com a mulher, descendente
de italianos. Foi com sua avó italiana (Dona Pascoalina) que José Ricardo
começou a cantar. Na sua adolescência, a família de José Ricardo se
mudou para o IAPI da Penha onde fez grandes amigos e teve os seus primeiros
grandes incentivadores.
Em
12 de julho de 1970 casou-se com Hercy Maria Nunes Rodrigues (após o
casamento trocou o "Rodrigues" pelo sobrenome "Tobias") que era sua
fã. Hercy - foto - sempre fugia de casa para participar
de programas de rádio e inicialmente participar do Fã-Clube da cantora
Marlene e Wanderléa. Sua família, tradicional, não aprovava sua
amizade com artistas e sempre tinha problemas para sair de casa. Pelo
seu dinamismo e interesse em ajudar, foi convidada pelo radialista José
Messias para participar da produção de seus programas na Rádio Guanabara.
Foi ai que começou a conviver mais de perto com os artistas, principalmente
da Jovem Guarda, e conheceu o seu ídolo maior que viria a se tornar
tempos mais tarde seu marido, companheiro de uma vida e pai de seus
dois filhos: Luiz Murillo (13.abril.1971) e José Ricardo Jr. (10.outubro.1972).
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A
CARREIRA COMEÇOU NO IAPI DA PENHA ______________________

O
IAPI da Penha é um conjunto habitacional localizado no Rio de Janeiro
e José Ricardo sempre citava o local como o ponto inicial de sua
carreira e guardava um carinho muito grande dos amigos que lá formou.
Fomos entrevistar estes amigos e descobrir sua origem. O resultado é
mostrado abaixo.
Foi
em 1950. 10 anos. Primeiro morou na Rua 13 por 5 anos e 13 anos na Rua
11. Cursou a escola Eurico Gaspar Dutra e Cardeal Leme;
- Qual
o motivo da mudança da Tijuca para a Penha ?
A
família morava de aluguel na Tijuca e o seu pai Sr. Philemon foi sorteado,
adquirindo um apartamento no conjunto residencial no IAPI da Penha;
-
Qual o lazer no tempo da infância e adolescência ?
Não
era de jogar bola e participou de vários eventos no Greip da Penha (cantando
e dançando). Gostava muito de frequentar a praça em companhia dos amigos
para conversar e cantar;
- Existiu
algum fato marcante com José Ricardo no IAPI ?
Quando
José Ricardo gravou o seu primeiro disco, a rua inteira parou para ouvi-lo.
Era toda a família emocionada e vizinhos orgulhosos com o amigo ilustre.
Foi uma grande comoção com a realização do sonho daquele, então, garoto.
- Quais
as pessoas que o ajudaram no início de carreira ?
No
IAPI, o radialista Cléber Figueiredo, pois agendava pequenas apresentações
para José Ricardo como por exemplo cantar com a Banda do Corpo de Bombeiros
na Rádio Mayrink Veiga. Outras pessoas que o ajudaram muito foram Paulo
Rocco e Aldacir Louro.
-
Como era visto pelas pessoas quando jovem ?
Uma
pessoa sempre solícita, querendo sempre ajudar aos amigos e aos menos
favorecidos. Um caso ocorrido na época: "Tinha uns 12 anos e seu pai
acabara de lhe dar roupas novas (fato que não ocorria normalmente pela
condição financeira da família) e vendo um menino desconhecido passar
com roupas surradas pela sua janela, chamou-o e deu-lhe as suas roupas
novas. Quando o pai lhe perguntou o motivo do gesto, comentou que um
dia teria oportunidade de ganhar outras roupas e o menino não teria
a mesma chance". Gestos como este repetiu por várias vezes durante a
vida.
- Qual
a influência dos moradores na sua carreira ?
Sempre
incentivaram a seguir carreira artística, pois seu talento aflorou desde
pequeno.
- Após
a mudança, quantas vezes retornou ao IAPI da Penha ?
Mesmo
com a saída do conjunto habitacional, junto com os seus pais e o irmão
caçula, ele retornava com regularidade para visitar a irmã e amigos.
Durante toda vida, voltava sempre ao IAPI para rever os amigos, tais
como: Nair e seus familiares, Alaíde, Almerinda, Elza, Léa, Ruth, Eunice,
Joralice, Nininha, que formaram o seu primeiro Fã-Club. Este carinho,
sempre orgulhava a todos, pois o sucesso não o modificou em nada. Dizia
sempre: "As boas amizades devem ser sempre preservadas e tenho orgulho
de minhas raízes na Penha.". Fez questão de manter o seu título eleitoral
por muitos anos na região, pois era sempre mais uma oportunidade de
rever centenas de amigos.
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AMIGO DOS ARTISTAS, AMIGO DE TODOS ______________________
Além
de sua atividade artística, José Ricardo evidenciou-se por seu generoso
coração, visto que tinha sempre uma mão amiga e os braços abertos a
quem lhe pedia ajuda. Das várias homenagens que recebeu durante a sua
carreira, a que mais lhe comoveu foi quando recebeu da SOCIMPRO (Sociedade
Brasileira de Intérpretes e Produtores Fonográficos) o troféu : "O Amigo
dos Artistas" pela contribuição e apoio dado durante toda a carreira
aos colegas de profissão. Mais tarde, tornou-se conselheiro da Instituição,
cargo que ocupava quando faleceu.
Este
é um retrato fiel da dignidade e do caráter deste cantor que não se
evidencia apenas pela sua bela voz, mas também pelo seu belo coração.
José Ricardo é reconhecido pelos colegas como um dos melhores "Bom caráter"
do meio artístico, pois esteve sempre pronto para ajudar aos colegas
que dele necessitavam e brigar por eles. Através do seu espírito de
solidariedade humana, colaborou com muitos artistas, destacando-se o
apoio e a responsabilidade assumida com as irmãs Batistas: Linda e Dircinha
Batista, dois patrimônios da Música Popular Brasileira.
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JOSÉ
RICARDO NO FILME ´JOVENS PRA FRENTE´______________________
Heloisa
Helena, Rosemary, Oscarito, Jair Rodrigues
e José Ricardo em cena do Filme de 1968
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Oscarito
em sua última aparição no Cinema

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O cantor José Ricardo participou como ator do filme "Jovens
prá Frente" que foi o último filme encenado pelo
brilhante Oscarito (Oscar Lorenzo Jacinto de La Imaculada Concepción
Teresa Dias - 16/08/1906 a 04/08/1970).
O filme foi lançado com grande sucesso em 1968 e teve a presença
do então presidente Juscelino Kubitscheck na platéia. |
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Produção:
ULTRA-URÂNIO
Direção, Argumento, Roteiro:
Alcino Diniz
Elenco:
Antônio Patiño
Clara Nunes
Emiliano Queirós
Heloísa Helena
Jair Rodrigues
José Ricardo
Mario Brasini
Oscarito
Rosemary
entre outros. |
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